sábado, 23 de fevereiro de 2013

Esperar por ela, seria o melhor mesmo?

Como já foi registrado, todas as manhãs vou fazer a saudável caminhada do dia. Parece que jamais poderei deixar de fazer a prática, a idade chega e o corpo reclama... bem, mas não é o motivo pelo qual aqui estou. Ontem, no percursso, encontrei pelo caminho muitas, muitas mesmo, forminhas de doces. Aquelas, pequenininhas que cabem deliciosos brigadeiros e outros tantos docinhos, causa das intermináveis caminhadas de qualquer um. Então, ao lado das forminhas azuis, cor linda, havia um par de sapatos feminino. Resultado: desde a manhã de ontem, fiquei me questionando como e porquê aqueles sapatos ali estavam. Não eram velhos e não faziam parte do lixo, estavam ali. Esquecimento? Poxa, mas alguém, em meio a festa, tira os sapatos e esquece de calçá-los?? Será que o cansaço foi tamanho, que até mesmo calçar os sapatos era demais?? Muitas indagações brotaram e até agora me pergunto a razão de um par de sapatos, feminino, em bom estado, estar junto de forminhas de doces, numa linda manhã de sol, de quinta pra sexta-feira. Mistérios!!!
Parei pra pensar também que a festa pela qual a dona dos sapatos passou foi no mínimo surpreendente, pois até perdeu os sapatos. Lembrei-me do velho ditado: "o melhor da festa é esperar por ela", e pensei será mesmo?
Rebubinei a memória (para aqueles que não são do tempo da bobina, seria assim um "voltar a fita") e tentei visualizar todas as festas pelas quais esperei muito por elas. Claro, nem foram tantas assim e muito menos que a memória fora justa e me mostrou todas elas. Por um instante as sensações chegaram bem perto da realidade. Medo, boca seca, ansiedade, tremedeira... e todas os reais sentimentos que nos envolvem quando esperamos muito por um acontecimento. Dias de preparação, seja por uma festa mesmo, seja por um encontro que se tornará uma festa ou por um instante que não era pra ser e se tornou a maior festa da sua vida. Assim, parece até que é melhor, pois não estamos tão ansiosos e ela chega deixando marcas para todo o sempre.
Normalmente, quando a possibilidade de uma festa existe, junto, vem toda a preparação. Hoje, existem pessoas que vivem de organizar a expectativa dos outros, organizando suas festas, para que os donos possam relaxar até o momento X. Como se fosse possível relaxar!! Todo este preparo exige coordenação, frieza, bom gosto (ou não), precisão, memória e o mais importante: desejar muito. De um simples jantar a um baile, de uma entrevista de emprego ou uma saída com a pessoa que imaginou por um bom tempo da sua vida... e assim as festas vão acontecendo em nossas vidas e parece que não conseguimos lidar com as emoções por mais experiência que se tenha. Talvez o pior sentimento de todos que vêm pós-festa, seja o de que tudo poderia ter sido diferente. Enxergar falhas e erros nos preparativos, sem querer admitir que todos nós erramos e se torna inevitável as falhas. Sempre, pelo menos comigo, fica o gostinho de que poderia ter sido melhor. Frustrante, não é?
Assim, pelo menos do meu ponto de vista, o melhor mesmo é esperar por ela - A Festa.
E de quantas festas necessitamos para perceber que a preparação é o que nos move, mostrando que estamos vivos e precisamos de novas sensações e novos desafios, outras tantas festas??
Pensemos....

domingo, 16 de dezembro de 2012

Barros & Bolos


Barros & Bolos
Ingredientes:
- barba e cabelos longos, salpicados                       - farinha,
de grisalho,                                                               - açúcar,
- roupas despojadas,                                                 - fermento,
- andar malemolente,                                                - ovos (claras em neve),
- uma dose de calma,                                                - leite,
- pitada de sapiência e experiência                          - manteiga,
(importantíssimos ingredientes),                              - chocolate em pó.
- sorriso largo,
- um par de olhos claros.
 
Como fazer:
Junte todos os ingredientes.                                     Junte todos os ingredientes,
Todos em doses moderadas,                                   as claras separadamente e
                                                                                       por último.
Aguarde alguns anos e terá um                                Leve ao forno pré-aquecido.
homem. Este, apaixonado por                                  Aguarde e terá um saboroso
                                                                                        bolo.
bolos...                                                                       Este, agrada
                                                                                    profundamente àquele.
                                                                              
O primeiro sempre em busca de respostas para que outros se satisfaçam ou tenham melhores condições. O segundo, com a função de satisfazer outros, principalmente o primeiro.
            Assim, temos duas receitas distintas. Entretanto, muito ligadas entre si, onde um procura respostas, enquanto se deleita e satisfaz com o outro. O outro, em espera, sabe que será objeto de deleite daquele. Assim, cada qual sempre com a função de satisfação e deleite dos outros.

sábado, 1 de setembro de 2012

VAI PASSAR... SERÁ?

O fim da semana de agosto foi marcado pelo fato de um ator hollywoodiano - Clint Eastwood - conversar com uma cadeira vazia, supondo ser o Presidente Obama, mostrando sua indignação. Parece, já que não estou nos EUA e nada posso afirmar, que a política de Mr. Obama não está agradando, e por esta razão, o ator ironizou e num "faz de conta"  de uma certa forma, protestou.
Assim que vi a repercussão trouxe a situação para nossa política. Como seria bom poder dizer coisas, ao vivo, para um público bem grande, com a presença do "político brasileiro". Dizer-lhe tudo que penso, sem ofensas, mas com severidade, sem aceitar suas explicações que nada explicam, deixando claro que não sou imbecil como supõe e que não o aceito como gostaria. 
Voltando a cena da cadeira, em primeiro lugar gostaria de saber: será mesmo que nossas cadeiras estão ocupadas? será que os paletós, e hoje também as bolsas, ocupam os lugares que pensamos estar bem representados? será que o "político", dono daquela cadeira, caso a desocupasse, não seria melhor?? Muitas indagações, poucas certezas e uma decepção sem tamanho!!
Ano de eleição, julgamento no STF, o mundo às voltas com a crise, violência, meio ambiente, nossas atitudes, o planeta virando do avesso, cataclismas anunciados, 2012 chegando e o prazo de validade vencendo, e nossos políticos,  com as mesmas ideias e as mesmas deformações de caráter, com as mesmas desculpas inescrupulosas de sempre. Entra eleição, termina, começa outra e as campanhas são idênticas, as promessas - as mesmas.
Assim, volto a me perguntar: será melhor a cadeira vazia? será melhor fingir que não há ninguém e que um dia tudo se resolverá por si só? será que nós eleitores, depois de tanto tempo de amargas experiências,  buscando a democracia,  acreditaremos que só depende de nós, e que substitui-los, partindo dos princípios da moral, ética, responsabilidade e honestidade, eficiência será o nosso único caminho?
Poucos dias antes de iniciar o julgamento do mensalão no STF, havia comentado com minha filha sobre a música "Vai Passar", do Chico Buarque, e dito o quanto a letra é significativa e poucos citavam-na com o peso que deveria ter. Para minha surpresa, nosso Procurador Geral da República, Senhor Roberto Gurgel, utilizou trecho da música, quando finalizava sua peça acusatória e então percebi que não estou tão errada assim. Brasileiros gostam tanto de samba, e por vezes nada ouvem, porque então não prestar atenção nas sábias palavras do Chico e pensar há quanto tempo os erros se repetem. O trecho citado aí está, seria bom ler e reler e quem sabe nas eleições que virão, possamos virar o disco, escolhendo melhor quem se sentará na cadeira que muda nosso mundo!
 
 
 
 
 
VAI PASSAR - CHICO BUARQUE
 Vai passar nessa avenida um samba popular
 Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
 Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
 Que aqui sangraram pelos nossos pés
 Que aqui sambaram nossos ancestrais
 Num tempo página infeliz da nossa história,
 passagem desbotada na memória
 Das nossas novas gerações
 Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
 sem perceber que era subtraída
 Em tenebrosas transações(...)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ai que saudade!!!

Como explicar um sentimento que brota do seu peito e você não sabe de onde vem e quando se vai???
Sentir saudade de uma situação que não aconteceu, que gostaria que acontecesse  e na sua cabeça toma uma dimensão que não consegue mais controlar... Sentir saudade de algo que não viveu, mas que você consegue sentir o cheiro, o gosto e  imaginar cenários, situações... sentir saudade de um toque que não sentiu, arrepiar-se com ele e desejá-lo cada vez mais... sentir saudade de um lugar que ainda não visitou, mas que a brisa e o perfume ficaram em sua memória... sentir saudade de um beijo que não aconteceu, mas que faz você fechar os olhos e lembrar dele como se tivesse acontecido ontem... sentir saudade do olhar que não foi trocado ou do amor que não foi correspondido... sentir saudade da palavra que não foi pronunciada, mas que ecoa como um sino fazendo parte, recente, das suas lembranças... sentir saudade de tudo que poderia ter sido e não foi. Como explicar este sentimento? 
Saudade!! Sentimento sentido, doído e não compreendido. Ele rasga seu coração, consome suas energias, desespera, machuca. 
Escritores e poetas já falaram sobre o tema, mas acredito que ainda não foi exaurido e muitos ainda falarão. Acredito que a intensidade deste sentimento é capaz de despertar outros tantos. Chico Buarque magnificamente descreve a saudade em sua música "Pedaço de Mim" e até então, ainda não havia encontrado nada tão forte e que me dizia tanto, quanto a letra desta música. Recentemente, lendo "A ausência que seremos", de Héctor Abad, encontrei outra forma de descrever este sentimento que não posso deixar de compartilhar: " A felicidade é feita de uma substância tão leve que facilmente se dissolve na memória, e quando volta à lembrança vem junto com um sentimento meloso que a contamina e que eu sempre refuguei, por inútil, enjoativo e, em última instância, prejudicial para viver o presente: a saudade."
Depois do que foi dito por Héctor Abad sobre a saudade, não há necessidade de se dizer mais nada. Até, quem sabe, bater uma saudade... não sei de quem, de quê ou de onde...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Aceita???

No trajeto para o trabalho e ouvindo a música "Presentes" comecei a divagar. Pensei quais seriam os presentes adequados a você, minha pequena. Aqui estão alguns, veja se os receberia e se acertei nas escolhas.
Provavelmente, em primeiro lugar daria o tempo. Aquele suficiente para que conseguisse realizar todos os seus sonhos. Talvez fosse longo, afinal, exigiria perfeição na realização de todos eles e tudo feito assim precisa de um tempo maior.
Daria também o cosmos. Certamente, descobriria os mistérios que envolvem a existência humana. Acredito que encontraria as respostas que rondam seu imaginário.
Presentearia você com a essência mais rara, quiçá única. Assim, teria o seu cheiro disseminado e perpetuado, perfumando seus caminhos, tornando-os únicos e inesquecíveis como sua presença.
Daria o segredo do chocolate mais puro. Com ele seus momentos de ansiedade, dúvida e até mesmo tristeza seriam adocicados com o sabor mais prazeroso e que lhe faz tão bem.
Pensei em lhe oferecer ainda acesso a todos os livros e músicas. Assim sua vida seria poesia com a trilha sonora apropriada a cada momento vivido.
Por fim, se me fosse permitido, lhe daria o convívio perpétuo com as pessoas que mais ama. Com isto, creio, seria feliz em toda sua caminhada. Acabaria tirando proveito do seu presente, pois teria a felicidade de tê-la, para sempre, ao meu lado, caminhando juntas. Amo você!!!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Olhar olhando...

Aprendi quando pequena que os olhos dizem muito. Meu pai e, principalmente minha mãe, conversavam com os olhos e nós, meus irmãos e eu, sabíamos até onde chegar dependendo do olhar que nos era direcionado. Acho que todos concordam que existem formas e formas de olhar...
O olhar de desdém... ah, esse ninguém merece!! Quando percebo tenho vontade de chegar na pessoa e perguntar: fiz alguma coisa para me olhar assim? Mesmo sabendo que a pessoa não o olhou deliberadamente. Tem aquele que parece dizer: "Ei quem é você e o quê faz aqui", será porque existem pessoas que acreditam ser melhor que outras? Embora, confesso, dependendo da situação e da pessoa, passo uma olhada dessas,  rsrs...  Existe ainda o olhar furioso, o cansado, o desiludido, o desconfiado, e aquele que parece que a pessoa vai te engolir, não é mesmo? Assim, ela quer contar alguma coisa, mas ao invés de chamar e levar você para algum lugar onde pode dizer o desejado, não. Ela fica olhando e olhando... quase engole você e não diz o que é. E o olhar triste? Nossa! Esse dá vontade de ficar triste também, não é? Por vezes, melhor dizendo, sempre observo as pessoas que passam por mim. Sejam conhecidas ou não. Gosto de fazê-lo. Quando faço minha caminhada pela manhã, procuro reforçar esse hábito, pois acredito ser bastante útil observar quem nos cerca. E, nestas observações, encontro pessoas que logo pela manhã contam com os olhos suas infelicidades, angústias e tristezas. Tenho vontade de pedir a pessoa para desabafar e contar suas tristezas para vê-la melhor. Afinal, se você encontra uma pessoa logo cedo, com um olhar triste, certamente, ela precisa muito desabafar.  Podemos falar ainda do olhar perdido. Perdido para quem vê, pois aquele que tem o olhar perdido, provavelmente encontrou alguma coisa em algum lugar, não é?
São tantas as maneiras de olhar e tantas são as interpretações que poderia ficar aqui, descrevendo e traduzindo formas de linguagem ditas com os olhos quase que eternamente. Minha filha afirma que tenho um olhar que mata. Claro que não é sempre. Ela diz que é tão profundo que mete medo!!! Bem, a intensidade não é proposital, creio que acontece quando já estou no limite.
Agora, não podemos mesmo  é  deixar de falar do olhar que consegue penetrar sua alma... que você sente como se fosse a única pessoa do universo. Aquela olhada que nada é preciso ser dito. Basta. Tira o folêgo, faz com que tudo tenha sentido no mundo e que você sinta tudo que existe no mundo. Creio que todos já estiveram diante desse olhar a que me refiro. Ele acontece de uma forma inesperada mas que tira você do centro. Ele acontece. Inesperadamente, quando percebe acaba gostando e você corresponde. Dá aquela olhadinha rápida, como se dissesse: "não, só estou olhando porque você me olhou..." e depois, disfarça, vira e com o "rabinho do olho" olha novamente. Esta brincadeira cria uma expectativa absurda! A aproximação é desejada, mas a troca de olhares é tão prazerosa que, esquecemos do mundo e continuamos naquele jogo interminável. E quando existe essa cumplicidade no olhar tudo já está definido. É preciso chegar perto. Confirmar. Traduzir o que os olhos adiantaram e simplesmente partilhar as emoções vividas naqueles instantes primeiros.
Afinal, se foi cantado e dito em versos por poetas e músicos, o olhar deve ter seu lugar de destaque na linguagem humana. Cultivemos essa expressão.

domingo, 9 de outubro de 2011

De frente com o passado...

Um dia a menina que crescia livre, segura de si, valente e decidida olhou nos olhos de um homem feito e sentiu seu coração tremer. Aquele sentimento era novidade. Havia sentido muitos outros. Desafios constantes faziam parte de sua infância. Primeiramente, por disputar com a primogênita o espaço do coração e atenção do pai e depois, pela própria personalidade que era geniosa. Sempre encarou os desafios e por mais medo que sentia, não deixava transparecer e criou-se o estereótipo da menina louca, que nada temia. Entretanto, os olhares aos se cruzarem fizeram-na descobrir um sentimento novo, que não podia dominar. Ela conhecia o amor. E este sentimento vinha acompanhado de muitos obstáculos. Ora, ela era apenas uma menina. No auge de seus 11 anos, sua vida resumia-se a escola, brincadeiras e muitas teimosias. Ali, se deparara com alguma coisa que povoava sua cabeça todo o tempo.
Ele era um rapaz comum. De origem humilde, veio apenas como ajudante e sua passagem seria breve. Um homem nos seus 25 anos mais ou menos, era simplesmente impossível pensar em qualquer envolvimento com uma criança. Era proíbido. Mesmo assim, ficou difícil conter algo que viria do coração, de um sentimento nobre e profundo e que ficaria na classificação do platônico. Esta foi a única forma daquele amor acontecer. Distantes, cidades diferentes, correspondências trocadas sigilosamente, aquele amor cresceu e se fortaleceu.
Um dia, para a felicidade daquela menina soube da notícia da mudança dele para sua cidade. Seu coração não se conteve de tanta felicidade. Sabia que, mais próximos e com o tempo passando alguma coisa poderia acontecer, modificar-se. Ele veio e passou a frequentar sua casa e todo sábado, por volta das nove da manhã seu coração não cabia dentro do peito. Ele sempre chegava nesta hora. Para a menina era a hora mais feliz do mundo. Ali tudo era possível, tudo era doce e nada poderia amedrontá-la. Passavam o dia juntos e entre olhares trocavam juras de amor eterno. A certeza dos sentimentos de ambos era como ter certeza que o céu não sairia do lugar e que o mundo existia. Continuava proibido, mas a criatividade sempre os aproximava. Assistiam tv sentados próximos e com os braços cruzados pegavam um na mão do outro, com todo o segredo que cercam os apaixonados. Aquela era melhor sensação que esta menina poderia experimentar no mundo. Ele, quando se aproximava dela, o coração batia tão forte que sobre a camisa percebia-se o movimento descompassado daquele amor proibido. O tempo continuou passando, o sentimento absorvendo e a vontade de crescer da menina era imensa. Queria poder viver para sempre ao lado da pessoa que significava a vida pra ela.
Um dia aquela menina soube da notícia mais triste de sua vida. Todas as promessas escritas, trocadas nos olhares e confirmadas nos entrelaçados das mãos viraram pó quando soube do casamento dele com uma outra mulher. Outra nem tanto, pois ela ainda era uma criança. Naquele tempo era-se criança por mais tempo que hoje. Com a notícia, o mundo perdeu a côr. E a partir daí, prometeu odiá-lo enquanto vivesse. Para sua surpresa, quando voltou da sua lua-de-mel, encontraram-se ocasionalmente e ele disse nunca ter esquecido dela. Disse que ao chegar em casa, via seu rosto em todos os lugares inclusive no rosto daquela que havia escolhido para casar. Intimamente ela amou saber disto, porém declarou guerra e disse que jamais o perdoaria. Ele voltou a frequentar sua casa como antes do casamento. Todos os sábados, por volta das nove da manhã ele chegava e ali passava todo o dia. Sempre sozinho, só retornava ao lar por volta das seis da tarde. Aquele continuava sendo o dia mais feliz da menina que insistia em esconder tamanha felicidade. Na inocência da idade, fazia desenhos com figuras de  monstros, pintados de negro e fazia o pequeno irmão levar e entregar a ele. Ali dizia em letras garrafais e bem escuras que ele era o diabo e que o odiava. Por trás daqueles desenhos, ela gostaria mesmo de dizer o quanto ainda o amava e que faria tudo para que o casamento não tivesse ocorrido. Sabia que nada podia ser feito. Tinha guardado apenas as lembranças dos pequenos momentos de toques, um beijo roubado e muita saudade de algo que não havia vivido e não compreendia. A situação permaneceu anos a fio...
Um dia esta menina cresceu. Com ela o amadurecimento e sempre a presença daquele homem. Os sentimentos se misturavam agora, pois queria namorar, amar e casar também um dia. Sem muitas explicações, talvez por ter amado primeiramente um homem bem mais velho, sua preferência se confirmou e sempre encontrava encantamento em homens maduros e mais velhos que ela. Aquele homem enciumado, sem disfarces manifestava toda sua indignação e passava a criticar todos os seus relacionamentos. Não aceitava o fato de ter que dividi-la com outro já que não poderia mais oferecer exclusividade. Ele sempre com a frequência dos sábados e ela sempre na esperança de um dia tê-lo para sempre. O tempo passando, o amor permanecendo e o curso da vida desenhando os destinos sem que pudessem fazer muita coisa. Beijos roubados, juras interrompidas, certezas incertas.
Um dia ele decidido prometeu que iria se separar e viveria com ela. Combinaram de juntos ir a cidade natal dele e lá ela terminaria um romance com o homem que mais tarde tornaria seu marido. Talvez, a felicidade que seu coração sentia só havia acontecido quando ele pela primeira vez lhe roubara um beijo numa praça depois de um charminho que fizera colocando-a no colo. Com a esperança renovada, o dia daquele sim demorara demais. Foi sozinha para cidade, decidida ao rompimento mesmo sem a presença dele.
Naquele dia, um dia... o mundo simplesmente desapareceu. Recebera a notícia de que ele havia morrido. Ela não sabia que sentimento vinha primeiro. Parecia história de novela. Não acreditou naquilo e ficou suspensa, envolta às lembranças e promessas. Não quis aceitar o fato de mais uma vez não realizar seus planos. Não aceitava a recusa dele mais uma vez em não  levá-la . Procurou então guardar tudo. Como se seu coração possuísse uma gavetinha. Ali ela trancou tudo. Vez ou outra abria a gavetinha e revivia cada minutinho de amor e saudade.
Um dia, a gavetinha se abriu sozinha. Foi revisitada por ele em forma de presente, mas com a sensação de passado. Um irmão, conseguiu encontrá-la e começaram então a rememorar tudo que se passou. Até agora, não se encontraram, mas a possibilidade é bem consistente e acontecerá mais dia menos dia. Essa menina hoje mulher, viu a gavetinha aberta e agora acredita que é chegada a hora de fechá-la definitivamente. Não será um adeus, pois um amor assim jamais cairá no esquecimento. Ela simplesmente acredita que conseguirá perdoá-lo por mais uma promessa quebrada, e que naquele momento, a escolha não fora dele e que aonde quer que esteja sabe que ainda viverão a história começada e não acabada. Ela precisa ficar diante desta história para transformá-la numa história e não num passado mau resolvido.
Um dia, quando esse reencontro acontecer,  ela conseguirá colocar um ponto final, finalmente!