domingo, 9 de outubro de 2011

De frente com o passado...

Um dia a menina que crescia livre, segura de si, valente e decidida olhou nos olhos de um homem feito e sentiu seu coração tremer. Aquele sentimento era novidade. Havia sentido muitos outros. Desafios constantes faziam parte de sua infância. Primeiramente, por disputar com a primogênita o espaço do coração e atenção do pai e depois, pela própria personalidade que era geniosa. Sempre encarou os desafios e por mais medo que sentia, não deixava transparecer e criou-se o estereótipo da menina louca, que nada temia. Entretanto, os olhares aos se cruzarem fizeram-na descobrir um sentimento novo, que não podia dominar. Ela conhecia o amor. E este sentimento vinha acompanhado de muitos obstáculos. Ora, ela era apenas uma menina. No auge de seus 11 anos, sua vida resumia-se a escola, brincadeiras e muitas teimosias. Ali, se deparara com alguma coisa que povoava sua cabeça todo o tempo.
Ele era um rapaz comum. De origem humilde, veio apenas como ajudante e sua passagem seria breve. Um homem nos seus 25 anos mais ou menos, era simplesmente impossível pensar em qualquer envolvimento com uma criança. Era proíbido. Mesmo assim, ficou difícil conter algo que viria do coração, de um sentimento nobre e profundo e que ficaria na classificação do platônico. Esta foi a única forma daquele amor acontecer. Distantes, cidades diferentes, correspondências trocadas sigilosamente, aquele amor cresceu e se fortaleceu.
Um dia, para a felicidade daquela menina soube da notícia da mudança dele para sua cidade. Seu coração não se conteve de tanta felicidade. Sabia que, mais próximos e com o tempo passando alguma coisa poderia acontecer, modificar-se. Ele veio e passou a frequentar sua casa e todo sábado, por volta das nove da manhã seu coração não cabia dentro do peito. Ele sempre chegava nesta hora. Para a menina era a hora mais feliz do mundo. Ali tudo era possível, tudo era doce e nada poderia amedrontá-la. Passavam o dia juntos e entre olhares trocavam juras de amor eterno. A certeza dos sentimentos de ambos era como ter certeza que o céu não sairia do lugar e que o mundo existia. Continuava proibido, mas a criatividade sempre os aproximava. Assistiam tv sentados próximos e com os braços cruzados pegavam um na mão do outro, com todo o segredo que cercam os apaixonados. Aquela era melhor sensação que esta menina poderia experimentar no mundo. Ele, quando se aproximava dela, o coração batia tão forte que sobre a camisa percebia-se o movimento descompassado daquele amor proibido. O tempo continuou passando, o sentimento absorvendo e a vontade de crescer da menina era imensa. Queria poder viver para sempre ao lado da pessoa que significava a vida pra ela.
Um dia aquela menina soube da notícia mais triste de sua vida. Todas as promessas escritas, trocadas nos olhares e confirmadas nos entrelaçados das mãos viraram pó quando soube do casamento dele com uma outra mulher. Outra nem tanto, pois ela ainda era uma criança. Naquele tempo era-se criança por mais tempo que hoje. Com a notícia, o mundo perdeu a côr. E a partir daí, prometeu odiá-lo enquanto vivesse. Para sua surpresa, quando voltou da sua lua-de-mel, encontraram-se ocasionalmente e ele disse nunca ter esquecido dela. Disse que ao chegar em casa, via seu rosto em todos os lugares inclusive no rosto daquela que havia escolhido para casar. Intimamente ela amou saber disto, porém declarou guerra e disse que jamais o perdoaria. Ele voltou a frequentar sua casa como antes do casamento. Todos os sábados, por volta das nove da manhã ele chegava e ali passava todo o dia. Sempre sozinho, só retornava ao lar por volta das seis da tarde. Aquele continuava sendo o dia mais feliz da menina que insistia em esconder tamanha felicidade. Na inocência da idade, fazia desenhos com figuras de  monstros, pintados de negro e fazia o pequeno irmão levar e entregar a ele. Ali dizia em letras garrafais e bem escuras que ele era o diabo e que o odiava. Por trás daqueles desenhos, ela gostaria mesmo de dizer o quanto ainda o amava e que faria tudo para que o casamento não tivesse ocorrido. Sabia que nada podia ser feito. Tinha guardado apenas as lembranças dos pequenos momentos de toques, um beijo roubado e muita saudade de algo que não havia vivido e não compreendia. A situação permaneceu anos a fio...
Um dia esta menina cresceu. Com ela o amadurecimento e sempre a presença daquele homem. Os sentimentos se misturavam agora, pois queria namorar, amar e casar também um dia. Sem muitas explicações, talvez por ter amado primeiramente um homem bem mais velho, sua preferência se confirmou e sempre encontrava encantamento em homens maduros e mais velhos que ela. Aquele homem enciumado, sem disfarces manifestava toda sua indignação e passava a criticar todos os seus relacionamentos. Não aceitava o fato de ter que dividi-la com outro já que não poderia mais oferecer exclusividade. Ele sempre com a frequência dos sábados e ela sempre na esperança de um dia tê-lo para sempre. O tempo passando, o amor permanecendo e o curso da vida desenhando os destinos sem que pudessem fazer muita coisa. Beijos roubados, juras interrompidas, certezas incertas.
Um dia ele decidido prometeu que iria se separar e viveria com ela. Combinaram de juntos ir a cidade natal dele e lá ela terminaria um romance com o homem que mais tarde tornaria seu marido. Talvez, a felicidade que seu coração sentia só havia acontecido quando ele pela primeira vez lhe roubara um beijo numa praça depois de um charminho que fizera colocando-a no colo. Com a esperança renovada, o dia daquele sim demorara demais. Foi sozinha para cidade, decidida ao rompimento mesmo sem a presença dele.
Naquele dia, um dia... o mundo simplesmente desapareceu. Recebera a notícia de que ele havia morrido. Ela não sabia que sentimento vinha primeiro. Parecia história de novela. Não acreditou naquilo e ficou suspensa, envolta às lembranças e promessas. Não quis aceitar o fato de mais uma vez não realizar seus planos. Não aceitava a recusa dele mais uma vez em não  levá-la . Procurou então guardar tudo. Como se seu coração possuísse uma gavetinha. Ali ela trancou tudo. Vez ou outra abria a gavetinha e revivia cada minutinho de amor e saudade.
Um dia, a gavetinha se abriu sozinha. Foi revisitada por ele em forma de presente, mas com a sensação de passado. Um irmão, conseguiu encontrá-la e começaram então a rememorar tudo que se passou. Até agora, não se encontraram, mas a possibilidade é bem consistente e acontecerá mais dia menos dia. Essa menina hoje mulher, viu a gavetinha aberta e agora acredita que é chegada a hora de fechá-la definitivamente. Não será um adeus, pois um amor assim jamais cairá no esquecimento. Ela simplesmente acredita que conseguirá perdoá-lo por mais uma promessa quebrada, e que naquele momento, a escolha não fora dele e que aonde quer que esteja sabe que ainda viverão a história começada e não acabada. Ela precisa ficar diante desta história para transformá-la numa história e não num passado mau resolvido.
Um dia, quando esse reencontro acontecer,  ela conseguirá colocar um ponto final, finalmente!

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